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Publicado por HELENA em 29/3/2011 (10161 leituras)
Ressurreição de Jesus
J. B. Libanio
2006 - Itaici
A ressurreição de Cristo é a mais fantástica notícia jamais dada pelas testemunhas da revelação. Outros preferirão escutar o anúncio de que Deus é amor, como nos recorda Bento XVI, ao dizer que “nós cremos no amor de Deus – deste modo pode o cristão exprimir a opção fundamental de sua vida” ( ). Mas afinal, amor deixa-nos a busca de concretizações. Sócrates ensina-nos que só comunicamos de verdade aquilo que conhecemos. Conhecer supõe experimentar. E onde se presenciou ato de maior dom e entrega – amor-agape - do que em Jesus na cruz, entregando-se a Deus seu Pai e à humanidade? E o silêncio de Deus não desabonaria tal ato? Não velaria o significado verdadeiro do amor? A ressurreição desfaz qualquer dúvida sobre o amor de Deus a Jesus, pondo à luz todo esse mistério. Amor vai, amor volta. Amor se esconde, amor se revela. Amor-sofrimento, amor-gozo. O mistério pascal situa-nos nessa encruzilhada maravilhosa do amor.
Sob três pontos de vista, a ressurreição de Jesus permite ser analisada. Numa revista de espiritualidade inaciana, imediatamente nos perguntamos pelo significado da meditação sobre a Ressurreição de Jesus na 4a semana dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Esses Exercícios se fazem, ao pressupor-se a fé. Não é um curso de teologia nem um itinerário apologético. Situa-se no plano da experiência para quem já crê. Daí surge uma segunda pergunta: então qual é o núcleo da fé cristã a respeito da ressurreição? Breve síntese dos pontos fundamentais ajuda a penetrar tal realidade. Ela fundamenta-se sobretudo na experiência dos discípulos. Esta nos chegou por meio das narrativas do Novo Testamento. À primeira vista, temos a impressão de ler textos transparentes que nos narram, de maneira clara e insofismável, as aparições de Jesus ressuscitado. É a atitude simples de quem faz os Exercícios. Mas hoje temos direito de ir mais fundo e perguntar-nos: como entender tais passagens à luz da teologia e exegese contemporâneas? Aí temos três tópicos para esse artigo.

I. Ressurreição nos Exercícios Espirituais

Para tratar tal questão, nada melhor que os especialistas nessa prática espiritual. O excelente livro do P. Ruiz de Gopegui oferece o significado fundamental dos mistérios da ressurreição e das aparições de Jesus glorioso, relacionando-os com o conjunto dos Exercícios. Corrige a leitura simplista de um momento de alegria e gozo que venha apagar a dureza do seguimento de Jesus até a cruz a modo de um happy end de filme americano de décadas passadas. Pelo contrário, aponta a meta da caminhada nas pegadas do Senhor. Já na contemplação do chamado do Rei eterno, o exercitante escutava de Cristo: "quem quiser vir comigo, deve trabalhar comigo, para que, seguindo nos trabalhos, também me siga na glória" ( ). Aí aparece a íntima ligação entre os mistérios da vida gloriosa com toda a trajetória de Jesus até a morte na cruz. Esta presença do Cristo glorioso mostra qual é a condição normal da vida cristã: todas as realidades da vida pessoal e social, duras, sofridas e exigentes, são atravessadas pela presença do Cristo ressuscitado. Ele nos consola, sobretudo pela ação de seu Espírito. Nas aparições, Jesus se mostra o Pastor que vai ao encalço das ovelhas tresmalhadas e assim reúne o novo povo de Deus. E ele o faz hoje especialmente pela presença sacramental ( ). Esse ponto não desenvolverei, deixando-o para os especialistas no ramo. Restringir-me-ei ao aspecto estritamente exegético-teológico da ressurreição.

II. O núcleo teológico da ressurreição e diversas interpretações

Um segundo aspecto corresponde à pergunta: qual é o núcleo da fé na ressurreição? Foi a pergunta que São Paulo respondeu em 1Cor 15. Jesus foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Cefas e depois aos Doze. E continua falando das aparições. Ou se quisermos, S. Pedro, no sermão dos Atos, expõe-no: "Jesus, o nazareno,[...] vós o entregastes e suprimistes, fazendo-o crucificar pelas mãos dos ímpios, mas Deus o ressuscitou" (At 2, 22-24).
Esse dado bíblico nuclear, que se consubstanciou nos credos rezados nas celebrações dominicais e festivas, desafiou a teologia enquanto fides quaerens intellectum - fé que busca inteligência. No fundo, a inteligência significa aqui filosofia. As filosofias situam-se diante da fé na ressurreição sob duas formas. Umas impedem e conduzem à negação da ressurreição. A concepção que têm de ser, da Transcendência, do ser humano, do mundo se consubstancia de tal forma que o mistério da ressurreição não encontra nelas lugar. Oferecem marcos filosóficos inaceitáveis para um cristão que crê na ressurreição. Outras propõem elementos que permitem entender essa realidade teologal. Passemos brevemente por cada tipo de filosofia ( ).

Quadro filosófico incompatível com a ressurreição

Toda filosofia materialista veda a intelecção do mistério da ressurreição. No princípio existe a matéria e tudo volta à matéria. O espírito não passa de mero e provisório acontecer da matéria pela força de um processo evolutivo regido pelas leis internas da própria matéria. Como pensar aí que Jesus Cristo na totalidade de seu ser superou as condições limitantes, temporárias da matéria para uma vida além da morte? Evidentemente todo materialista rejeita qualquer menção à ressurreição como mera fantasia, como puros desejos do ser humano que não suporta o próprio destino de perder-se no cosmos material sem nenhuma existência pessoal. Após a morte, o nada pessoal, o nada existencial, o nada de tudo o que fomos como história livre e consciente. Tem razão o poeta Augusto dos Anjos. Passamos da química da composição à da decomposição.
“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra ( )!”
Nem salva o materialismo admitir que continuamos a existir na história por aqueles e aquilo que marcamos durante a existência com as relações que cultivamos. Seremos nos outros, nas coisas tocadas por nós. Os poetas na poesia, os pintores nas pinturas, os escritores nos escritos, todos nos amores que viveram. Mas o eu mesmo desaparece definitivamente. Como entender a ressurreição de Jesus nesse quadro? Impossível. Ele teria sido, no entanto já não seria. Não poderia estar presente em nenhuma Eucaristia. Permaneceria unicamente na mera lembrança dos seguidores, nos escritos dos discípulos. Não teria nenhum poder salvador atualmente, pois seu eu ter-se-ia perdido no fluxo gigantesco da história, como uma onda sonora nos infinitos sons até hoje produzidos e guardados no depósito de todos os ruídos.
Horácio se alegrara de ter construído um monumentum aere perennius, “um monumento mais perene que o bronze”, isto é, suas poesias. Jesus teria deixado sua mensagem e continuaria para sempre um mestre a atuar unicamente pela força interna dos ensinamentos. Tal quadro filosófico não capta o mínimo do mistério da ressurreição.
A filosofia oposta, espiritualista, rejeita a definitividade da carne humana. Esta veste o espírito para o tempo em que ele viver aqui na história. Com a morte, a alma se livra totalmente de qualquer vínculo com a carne, enquanto expressão da visibilidade corpórea do ser humano. Esse espiritualismo circulou na filosofia desde o platonismo mais puro em que o ser humano é pura alma, espiritual, imortal e divina até formas populares de desprezo do corpo. O modelo de morte é Sócrates, como nos descreve Platão no Diálogo Fédon. A morte de Jesus na cruz, entregando-se ao Pai, e sendo ressuscitado por ele, não cabe, de modo nenhum, nessa filosofia. Por isso, quando Paulo falou da ressurreição no areópago de Antenas, os ouvintes ironicamente comentaram: “Nós te ouviremos sobre isso noutra ocasião” (At 17, 32).
Mais espalhada entre nós é a filosofia da reencarnação. No fundo, participa de certo espiritualismo, embora fale claramente de re-en-carn-ação. Reencarnar-se significa que o espírito se livra de um corpo e pode voltar a outro. A última consistência da pessoa é o espírito. Ele carrega, por assim dizer, o núcleo pessoal onde ele for, sem nenhuma vinculação definitiva com o primeiro corpo. Pelo contrário, sucessivamente se liberta dos corpos para ir purificando-se. Reduz, no fundo, o ser humano a uma entidade espiritual que perambula por diversos corpos. A reencarnação contrapõe-se frontalmente ao mistério da ressurreição, ao menos entendida nessa maneira grosseira.
Com a Nova Era tal doutrina tem vindo fortemente à baila. O povo brasileiro carrega profunda e longa tradição reencarnacionista. Penetrou-lhe a mentalidade e emerge, aqui e ali, sob diversas formas. O ponto crucial incompatível com a ressurreição de Jesus consiste em negar a unidade pessoal entre corpo e alma e a indestrutibilidade do indivíduo humano. A morte não pode ser pensada nem como perda na história (marxismo), nem no cosmos (materialismo), nem num ser vago anônimo, nirvana (hinduísmo), nem também como possíveis voltas do indivíduo à história sob outras formas. Não basta entender a morte da pessoa como a continuidade na memória histórica, nem sob alguma forma impessoal em realidade maior, nem na quimicidade do mundo material, nem como saída provisória.
Qualquer quadro maniqueísta, que despreza a matéria, que vê o corpo como degradação, não permite entender um corpo glorioso. Isso implica admitir que a matéria tem possibilidade ser santificada e glorificada por Deus, o que o maniqueísta não suporta.
Há quadros culturais arcaicos, que apenas menciono, por já não possuírem vigência em mentalidades modernas, como imaginar o mundo do além de maneira espacial. O corpo depois da morte mudaria simplesmente de lugar. Em vez de viver aqui neste mundo no meio às coisas e pessoas, iria para um outro mundo a ser fantasiado de muitos modos. Os judeus usaram o termo sheol, os gregos hades. Religiões tradicionais continuam mantendo o mesmo esquema.

Quadro filosófico compatível com a fé na ressurreição

Dados inegociáveis do mistério da Ressurreição

Toda explicação teológica da ressurreição precisa dar conta de um núcleo dogmático imprescindível.
- Jesus Cristo, na corporalidade e na espiritualidade, chegou à plenitude na ressurreição, sem rejeitar nenhuma dessas duas dimensões. Continua a existir na unidade de sua pessoa - corpo e alma, espírito e matéria. A totalidade da pessoa de Jesus ressuscitou.
- Entre o Jesus palestinense e o Cristo glorioso permanece a identidade de pessoa. O mesmo Jesus, que se encarnou, nasceu da Virgem Maria, foi crucificado, morto e sepultado, é o mesmo ressuscitado. Não há ruptura da identidade pessoal, mas unicamente na maneira de viver.
- A ressurreição de Cristo, apesar de significar a plenitude absoluta da realização de uma existência humana pessoal, ainda está incompleta no corpo eclesial, como São Paulo claramente ensina. Se falta algo a completar na paixão de Cristo, falta também na ressurreição (Cl 1, 24). É o aspecto social da ressurreição. Não é um ato isolado de Cristo. Implica a ressurreição de todos os mortos. São Paulo, noutro lugar, explicita esse ponto: "Se não existe ressurreição dos mortos, Cristo também não ressuscitou" (1Cor 15, 13). Não podia ser mais claro. A ressurreição de Cristo está intimamente relacionada com a ressurreição dos mortos e vice-versa. Em outras palavras, a ressurreição de Cristo e de cada um de nós só atingirá sua plenitude no final dos tempos, como encontramos no símbolo da fé: "creio na ressurreição dos mortos no último dia". A ressurreição de Jesus é, portanto, primícias de nossa ressurreição e da glorificação do cosmos. Toda a criação participa dela já agora, tem em si germe de eternidade, e se manifestará plenamente no final dos tempos.
- A ressurreição não pertence a nenhuma força imanente do ser humano de maneira que ele continuaria existir além da morte pela sua própria natureza. Ela é um dom de Deus Pai. O verbo ressuscitar é transitivo direto e o sujeito só pode ser Deus. Deus ressuscitou a Jesus Cristo, como Pedro (At 2, 24.32) e como o uso do verbo ressuscitar na voz passiva, cujo sujeito de causa eficiente é Deus (Mc 16, 6), o mostram ( ).
- A ressurreição de Jesus já aconteceu logo depois da morte. A Escritura usa a expressão simbólica "no terceiro dia" para dizer que ele não permaneceu no mundo dos mortos.
A teologia cristã tem de levar todos esses pontos em consideração para ser plausível. Atualmente dois quadros teológicos pretendem dar conta dessa tarefa.
Quadro tradicional

A partir de uma leitura quase literal da Escritura e num horizonte filosófico pré-moderno, elaborou-se uma explicação ainda hoje mais comum e de mais fácil intelecção. Por ser muito conhecida, menciono-a resumidamente. Com a morte, a alma de Jesus se separou de seu corpo. E este ficou três dias no sepulcro à espera de reunir-se à alma. Então se deu a ressurreição pela ação de Deus que transformou o corpo morto de Jesus em corpo glorioso. Nesses três dias, ele teria descido à mansão dos mortos, como rezamos no Credo.
A mansão dos mortos traduz o sheol judaico. Aí estavam todos os mortos a esperar esse momento maravilhoso da morte de Jesus e sua ressurreição. Com ela, ele levaria para o céu os justos que lá ainda não tinham entrado por estarem suas portas fechadas. Jesus ressuscitado conduz o séquito das almas para o céu. Hoje lá estão todas as almas dos mortos em Cristo, exceto a Virgem Maria que estaria em corpo e alma. Alguns devotos incluem São José na tríade dos ressuscitados de corpo e alma: Jesus, Maria e José. De todos os outros/as estaria somente a alma à espera do dia da ressurreição final dos mortos quando ela se unirá ao próprio corpo.
Essa posição fundamenta-se em dois pilares: na intelecção imediata da leitura bíblica e na antropologia clássica. Esta entende o ser humano numa real unidade de corpo e alma, mas cujo existir depende do ser que a alma comunica. Com a morte, o corpo se separa e a alma permanece na existência. Como evitar de cair num espiritualismo inconciliável com a fé na ressurreição, imaginando o ser humano como uma pura alma no céu, como se fosse um anjo que nunca foi? A teologia clássica responde a esse impasse, fundamentando-se em Santo Tomás, ao entender a alma separada do corpo mantendo uma relação transcendental com ele. De maneira simples, o "eu" humano só alma está numa situação "violenta", pedindo o corpo que lhe foi a expressão na terra. Isso acontecerá no final dos tempos. Até lá o ser humano, nele mesmo, não atingiu a plenitude.

Quadro da unidade radical indissociável entre corpo e alma

A mudança veio por influência das ciências naturais e da filosofia moderna. A concepção evolucionista e o avanço da microbiologia diminuíram o limiar entre matéria e espírito, entre corpo e alma, tanto no processo evolutivo quanto na realidade de cada ser. A unidade é de tal modo pensada que não se entende como pode separar-se alma e corpo na morte, já que a alma é a matéria que tomou consciência de si, e a matéria é a alma "congelada". Morre-se todo. Ou se volta ao nada, ou Deus ressuscita imediatamente o todo ( ).
Na posição tradicional, a ressurreição era entendida como a união da alma ao corpo, dando-lhe nova forma gloriosa no momento em que se une a ele. No caso de Jesus, isso aconteceu no terceiro dia. Maria, por sua vez, na hora mesma da morte, foi assunta aos céus. E nós, porém, ressuscitaremos no final dos tempos. Nessa nova leitura antropológica, a ressurreição acontece para todos - Cristo, Maria e nós - da mesma maneira quanto ao instante e não da mesma maneira no sentido histórico-salvífico. A diferença não está na prioridade temporal de Cristo e de Maria, mas na prioridade de ambos no projeto salvífico de Deus. Em Cristo, Maria foi ressuscitada. Em Cristo e em íntima comunhão com Maria, fiel seguidora de Cristo, nós todos ressuscitamos no momento da morte, como seguidores de Cristo e tendo Maria como modelo de tal seguimento.
A grande virada se dá na superação do esquema temporal e espacial, para entender a ressurreição de Cristo, a assunção de Maria e a nossa ressurreição em termos de relação. Pela ressurreição estabelece-se uma relação que supera todo tempo e espaço. É outro modo de existir do mesmo eu, na sua totalidade. Corpo e alma ressuscitados adquirem outro significado. Não são partes substanciais constitutivas do ser humano que se unem (concepção) e se separam (morte) respectivamente. São expressão da unidade histórica e espírito-corporal da pessoa humana e, portanto, permanecem além da morte noutra maneira de existência, de relacionamento.

III. Perspectiva bíblica da ressurreição de Jesus

Um terceiro passo é aproximar-nos dos textos do Novo Testamento que nos relatam as aparições de Jesus. O fato mesmo da ressurreição não foi narrado. É conclusão da experiência que as pessoas fizeram da dupla realidade de Jesus - corporal/terrestre antes da morte e gloriosa viva depois da morte. O salto entre as duas se chama ressurreição. No sentido bem estrito da palavra, a ressurreição não é um fato direto histórico, porque explode a categoria de tempo e história que conhecemos. Nela se dá uma vida que escapa diretamente de toda historicidade. Ninguém viu nem vê uma pessoa ressuscitada no sentido estrito do termo. A ressurreição é inverificável. Ela se infere, isto é, chega-se a ela, pela via indireta do testemunho dos que fizeram uma experiência original, intraduzível, indescritível do ressuscitado. Ela é um fato de fé da Igreja primitiva que nos transmitiu e que assumimos na fé. Tem a certeza e firmeza da fé e não dos fatos empiricamente verificáveis, como a queda de uma ponte.
A gênese da fé na ressurreição se deu no interior da comunidade eclesial primitiva. Os discípulos e outras pessoas conheceram o Jesus palestinense. Seguiram-no. Perceberam a grandeza de sua vida. Viram o fracasso de seu término na cruz. Numa lógica primeira, chegariam à conclusão dos discípulos de Emaús: "nós esperávamos que ele seria o que devia libertar Israel" (Lc 24, 21). E, de fato, tudo teria terminado assim, como foi o caso de outros "messias" do tempo de Jesus. Os zelotas Teúdas e Judas, o Galileu, arrastaram centenas de pessoas consigo e foram desbaratados pelos romanos. Depois de suas mortes tudo terminou. Foi aliás o argumento usado por Gamaliel perante o Sinédrio. Deixem em paz os seguidores de Jesus. Tudo terminará em nada a não ser que haja uma verdadeira revelação de Deus sobre ele (At 5, 36-39). Dessa revelação o novo testamento dá testemunho. Ele está vivo.
O fato da ressurreição pertence ao universo da revelação, da fé. Evidentemente a fé não se funda sobre o vazio. Tem indícios, mas não prova no sentido empírico do termo. Pertence ao outro tipo de racionalidade. Assemelha-se à racionalidade do amor.
O famoso argumento do túmulo vazio que foi usado pela apologética não constringe a inteligência a aceitar a ressurreição. O próprio evangelho de Mateus nos fala da ambigüidade interpretativa: os discípulos roubaram o corpo e o esconderam e propalaram a idéia da ressurreição ou realmente ressuscitou. Diante do túmulo vazio, a racionalidade histórica preferiria a primeira hipótese que guarda uma lógica direta e humana. "Esta história propagou-se entre os judeus até o dia de hoje" (Mt 28, 15). A essa versão dos soldados, subornados, Mateus contrapõe a da revelação. "Não está aqui, porque ressuscitou!" (Mt 28, 7).
Teologalmente falando, uma vez aceita a fé na ressurreição pela revelação, o túmulo vazio reforça, simbolicamente, essa realidade. Mas não é condição necessária nem suficiente. O vazio do túmulo aponta para o mistério da vida de Cristo, não em outro lugar, mas sob outra forma. Aí está a mensagem teológica. A identidade do Jesus palestinense com o Cristo glorioso não se dá pela fisicidade do mesmo corpo, porque o corpo glorioso é de outra natureza. No entanto, o corpo físico morto de Cristo desaparecido simboliza que ele foi o sinal visível na terra daquele que hoje está vivo gloriosamente. E esse sinal terreno já não existe. S. Leão Magno disse de maneira maravilhosa: "O que era visível em Cristo passou para os sacramentos da Igreja" ( ).
E as famosas aparições? Aí a apologética tradicional punha toda a força. Os discípulos viram a Jesus e Tomé tocou-lhe as chagas (Lc 24, 39; Jo 20, 27), Jesus comeu peixe grelhado diante dos discípulos (Lc 24,42), as mulheres abraçaram-lhe os pés (Mt 28,9), os apóstolos ouviram-lhe a voz que transmitiu ordens (Mt 28, 18, Mc 16, 15), ele partiu o pão diante dos discípulos de Emaús depois de conversar longamente com eles (Lc 24, 13-35), ele manda lançar as redes e faz milagres (Jo 21, 6). Essa abundância de sinais visíveis dá a impressão de que os discípulos viram Jesus de uma maneira absolutamente reconhecível pelos sentidos.
Uma leitura arguta dos mesmos textos descobre sinais opostos. Madalena pensa que ele é jardineiro (Jo 20, 15), a primeira impressão da aparição é de medo e de ver um espírito (Lc 24, 37), os discípulos andam com ele sem reconhecê-lo (24,16) e mais impressionante é a cena final. Jesus aparece aos onze, com os quais supostamente tivera quarenta dias de convívio, numa montanha na Galiléia, aonde lhes mandara ir e dá-lhes as últimas ordens. E o evangelho acrescenta essa minúscula perícope: "mas alguns tiveram dúvidas" (Mt 28, 17). Essa observação deixa-nos absolutamente perplexos. Como é possível que alguns daqueles que viram tantas vezes Jesus, na hipótese de que as aparições foram visões sensíveis e de que o reconheceram de maneira ineludível, ainda duvidaram? Logo tudo nos leva a crer que estamos diante de um outro tipo de linguagem que a comum das descrições.
Percebemos que nos evangelhos se deu um processo crescente de concretização e materialização das aparições. Constata-se desde a expressão simplíssima de que Jesus se deixou ver, apareceu, talvez mais exatamente, em linguagem de hoje, foi experimentado, até as descrições grotescas dos apócrifos passando pelas formas bem concretas de Lucas e João. Por trás se percebe um interesse apologético. Os evangelistas não traçaram descrições das aparições, mas por meio desse instrumento didático nos passaram a certeza absoluta de que tinham de Jesus estar vivo e de que o experimentaram vivo. Essa comunicação é o centro da revelação cristã. Paulo o disse de maneira contundente: "e se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e vazia também é a vossa fé" (1Cor 15,14). E continua de maneira dramática: "acontece mesmo que nós somos falsas testemunhas de Deus, pois prestamos um testemunho contra Deus afirmando que ele ressuscitou o Cristo quando não o ressuscitou" (1Cor 15, 15).
Avançando mais teologicamente, perguntamo-nos pelo significado das aparições. Que elas foram para as testemunhas do novo testamento e que elas são para nós hoje?
Para as pessoas da comunidade primitiva, elas foram a linguagem de que dispunham para transmitir a experiência que fizeram. Certamente eles experimentaram uma realidade. Algo aconteceu com esses testemunhas da comunidade primitiva que só é compreensível pela fé. Essa realidade se torna inacessível aos instrumentos historiográficos. O que os testemunhas viveram só se tornou explicável para eles mesmos e isso nos quiseram comunicar, se de fato Jesus ressuscitou. Sem a ressurreição de Jesus, a vida que se teceu na comunidade primitiva, a missão apostólica, os ritos que celebravam, a prática que viviam não passariam de um contra-senso total. Sem ressurreição, "seríamos os mais miseráveis de todos os homens" (1Cor 15, 19).
Pedro quando descreve a ressurreição de Jesus usa a linguagem apocalíptica de que dispunha na tradição judaica. O justo sofredor é exaltado por Deus. Esse esquema ele reconheceu realizado em Jesus. Ele, imensamente justo, foi entregue à morte. Deus não o abandonou, mas o ressuscitou. Ressoam aí tons apocalípticos do Antigo Testamento, como os de Elias e Enoque arrebatados ao céu, ou como os da elevação, glorificação e entronização do Messias. João, repetidas vezes, usa tal linguagem para falar da caminhada de Jesus.
Embora essa linguagem seja mais antiga e não fale diretamente de ressurreição, no fundo, refere-se à mesma realidade. Que significa ser glorificado, exaltado, entronizado na glória por Deus senão ser ressuscitado por ele? Mais tarde se usa o modelo da ressurreição, também disponível no contexto cultural da época, para exprimir a mesma realidade.
Desde o século II antes de Cristo, a literatura judaica conhecia a ressurreição dos mortos. A cena da morte dos macabeus reflete o clima de perseguição contra os judeus por parte da dinastia grega dos selêucidas. Então os judeus se perguntaram pelo destino dos heróis que nela sucumbiram. Um dos filhos macabeus, chegado já ao último alento, disse,dirigindo-se ao algoz: "Tu, celerado, nos tiras desta vida presente. Mas o Rei do mundo nos fará ressurgir para uma vida eterna, a nós que morremos por suas leis!" (2Mc 7,9). Um outro, estando já próximo a morrer, assim falou: "É desejável passar a outra vida às mãos dos homens, tendo da parte de Deus as esperanças de ser um dia ressuscitado por ele" (2Mc 7, 14). No contexto da mesma perseguição, Daniel fala dos que dormiram no solo poeirento e acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno (Dn 12, 2).
No tempo de Jesus, já era uma fé firmada e aceita pelos judeus, exceto pelos saduceus. Mais: reinava no horizonte cultural forte expectativa escatológica. E nesse contexto, acontece a morte de Jesus. Tinha-se excelente instrumental para interpretá-la na perspectiva da ressurreição. Diferentemente do tempo dos Macabeus, a ressurreição de Jesus não foi postergada para o final dos tempos, mas a comunidade apostólica inverteu o esquema. A ressurreição de Jesus antecipa a ressurreição final. Ele inaugura o tempo final, "os últimos dias", ressuscitando todo, corpo e alma. O judeu não consegue imaginar outro tipo de ressurreição, já que não separa corpo e alma.
Nesse clima escatológico, as aparições cumpriam a função de mostrar a identidade pessoal do Jesus palestinense e do Cristo ressuscitado. A cena de ver e tocar as chagas carrega-se de enorme sentido simbólico. O homem das chagas é o Jesus crucificado, que aparece, mas numa nova condição.
A modo de resumo. Os dados da Escritura afastam duas posições extremas sobre as aparições de Jesus ressuscitado. Elas são visões sensíveis, indubitáveis do corpo físico de Jesus, como quando nos encontramos com alguém que conhecemos. Nesse caso, os discípulos adquiririam da ressurreição a certeza sensível, empírica que temos diante de uma pessoa anteriormente familiar. Como indicamos acima, a descoberta da presença viva de Jesus por parte dos discípulos passou por vicissitudes que o encontro com um corpo fisicamente reconhecível não explica. E também não se entende porque somente na fé que ele foi identificável. Para ver o corpo físico do Jesus palestinense não precisava ter fé, mas sentidos. Os seus inimigos o viram. E para ver o ressuscitado, sim. Os seus inimigos não o viram. Logo não pertencem à mesma natureza de visibilidade.
O outro extremo se faz inaceitável. O corpo ressuscitado de Jesus não passou de pura ilusão e projeção imaginativa dos discípulos. Não havia nenhuma presença real dele. As pessoas configuraram aquelas aparições como expressões de desejos, de fantasmas, de imagens guardadas na memória, mas que não tinham nenhuma consistência real. Essa posição não dá conta da transformação profunda e da convicção inabalável dos discípulos a ponto de darem a vida por essa realidade. Nenhuma ilusão sustentaria tanto tempo e tantas pessoas até o dia de hoje. A certeza da experiência do Cristo glorioso por parte dos discípulos, adquirida não pelos sentidos, mas pela fé, se impôs de tal forma que criou as comunidades primitivas, levou-as a celebrar a memória dele, como de um vivo, em ritos, desencadeou a difusão do Cristianismo até os confins da terra.
Ainda alguns pormenores. Alguém poderia perguntar por que se fala de descer aos infernos ou à mansão dos mortos e de ressuscitar ao terceiro dia? Estão em questão espaço e tempo? O mundo antigo, mítico na linguagem bultmaniana, carece de "desmitologização", isto é, ser traduzido no horizonte moderno pessoal, de relações. Descer à mansão dos mortos significa morrer realmente e não aparentemente. Deixou definitivamente esse mundo. A linguagem de movimento espacial permite ser traduzida como nova forma de existir. K. Rahner usa a expressão de pancósmica ( ). O Cristo ressuscitado tem uma relação com o coração do mundo, com todas as criaturas. É isso que lhe possibilita estar realmente presente, embora não espacialmente, em todas as eucaristias do mundo. Terceiro dia significa na mentalidade oriental que Jesus permaneceu só temporariamente na sepultura. Alguém que continuasse morto depois do terceiro dia significaria que ele teria uma permanência definitiva no mundo dos mortos ( ). Este não foi o caso de Jesus. Ele ressuscitou.

Conclusão

Uma bela série de imagens do Novo Testamento revela-nos a relevância da ressurreição de Jesus para a fé do cristão e da Igreja. Com a imagem da colheita, Paulo diz que Jesus "ressuscitou dos mortos, primícias dos que morreram" (1Cor 15, 20). A tipologia de Adão oferece outra via para interpretar a ressurreição. Pelo primeiro Adão entrou a morte, pelo segundo veio a ressurreição. "Todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida" (1Cor 15, 21). A metáfora da família, tão querida e significativa para os judeus, oferece a afirmação de que "ele é o começo, o primogênito dentre os mortos" (Cl 1, 18; Apc 1, 5). O primogênito abre o seio materno e adquire privilégios. Jesus abriu o seio da morte e estendeu a toda humanidade o privilégio de ressuscitado, propiciando-nos a mesma vida eterna.
Nos Atos (3, 15; 5, 31) e na epístola aos hebreus (2, 10), Cristo ressuscitado aparece sob a figura de um “chefe de fila” (αρχηγός), condutor de um grupo, causa primeira, príncipe de uma multidão de ressuscitados que somos nós. Bela imagem. O cortejo dos glorificados com o Senhor Jesus à frente.
Em outra passagem, as metáforas da âncora, do vestíbulo, (πρόδομος) e do véu do Templo nos transmitem a segurança e precedência de Jesus que penetra para além do véu e aí nos antecede (Hb 6, 19-20).
A ressurreição de Jesus tornou-se o lugar central da esperança cristã, conferindo-nos a certeza de nosso futuro, porque o Senhor Jesus já o inaugurou definitivamente. Ele é a fragata ligeira a conduzir os navios atrás de si e lançou a âncora na eternidade de Deus pela sua ressurreição ( ).

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